outubro 4, 2026
Viagem de Negócios

Negócios no Canadá: tarifas dos EUA abrem espaço ao Brasil

Guerra tarifária de Trump aproxima Canadá do Mercosul e abre espaço para empresas brasileiras

Com o comércio bilateral em nível recorde e um acordo Mercosul-Canadá na reta final, exportadores brasileiros têm uma janela para diversificar uma pauta ainda dominada pelo ouro

O Brasil nunca vendeu tanto ao Canadá. As exportações brasileiras ao país fecharam 2025 em US$ 7,25 bilhões, alta de 15% sobre 2024, e o saldo comercial chegou a US$ 4,11 bilhões, o maior já registrado entre os dois países, segundo a Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC). O ritmo continuou em 2026: no primeiro semestre, as vendas brasileiras somaram US$ 3,67 bilhões, maior valor da série para o período.

O pano de fundo é a política tarifária de Washington, que empurrou Ottawa e o bloco sul-americano para a mesma mesa. Em 22 de agosto, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses após o fracasso das negociações em Washington. A lista inclui laticínios, bebidas alcoólicas, cimento e equipamentos de hóquei, e o primeiro-ministro Mark Carney anunciou retaliação a partir de 8 de setembro. O Brasil viveu sua própria versão do embate: depois que a Suprema Corte americana considerou ilegais, por 6 votos a 3, as tarifas amplas baseadas na lei de emergência de 1977, o USTR propôs em junho tarifas adicionais de 12,5% sobre produtos brasileiros, com base em investigações da Seção 301.

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Mercosul e Canadá na Pauta

Canadá e Mercosul retomaram as conversas em outubro de 2025, após um hiato desde 2021. Na décima rodada, realizada em Toronto entre 25 e 29 de maio, cinco capítulos do acordo avançaram para a fase de encerramento. Em julho, em São Paulo, a chanceler canadense Anita Anand afirmou que os dois lados concordaram em intensificar as negociações para concluí-las, de preferência, antes do fim de 2026, e acrescentou que o Canadá pretende dobrar seus acordos comerciais fora dos Estados Unidos.

O peso do bloco para Ottawa não é desprezível. O comércio de mercadorias do Canadá com o Mercosul chegou a C$ 15,8 bilhões em 2024, e o governo canadense calcula que o acordo pode reduzir em até 35% as tarifas sobre suas exportações em setores como máquinas, químicos e produtos florestais. Do lado sul-americano, o comércio de bens com o Canadá atingiu US$ 12,6 bilhões em 2025, com US$ 8,7 bilhões em exportações do Mercosul, segundo dados do próprio bloco.

Ainda há arestas. O cronograma de desgravação tarifária e as regras de origem seguem entre os temas que exigem mais negociação, e a Federação Canadense de Agricultura declarou ter sérias preocupações com o acordo.

A mesma lógica move a aproximação com a Europa. O acordo Mercosul-União Europeia passou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio de 2026. O Canadá, que já opera o Ceta com Bruxelas, foi além: em setembro, Ursula von der Leyen sugeriu que o país pode se tornar o primeiro membro associado da União Europeia, status que hoje não existe nos tratados europeus. A próxima etapa é a cúpula Canadá-UE, marcada para 29 e 30 de outubro em Montreal. Dez países europeus ainda não ratificaram o acordo comercial firmado há uma década, o que dá a medida do desafio.

Pauta concentrada

O desempenho recorde esconde uma dependência. No primeiro semestre de 2026, as vendas de ouro bruto ao Canadá subiram 52%, para US$ 2,06 bilhões, mais da metade de tudo o que o Brasil exportou ao país. É nessa diferença entre o volume total e a pauta diversificada que analistas enxergam espaço para outros setores.

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Agronegócio

Os alimentos já mostram tração. No primeiro semestre de 2025, açúcar, café e carne suína tiveram aumento substancial nos embarques ao Canadá. Na carne bovina, as exportações de cortes desossados congelados somaram US$ 60,5 milhões em 2025, alta de 189%. O fluxo inverso também cresce: os fertilizantes responderam por mais da metade das importações brasileiras de produtos canadenses no primeiro semestre de 2026, o que reforça a complementaridade entre os dois agronegócios.

Um mapeamento da indústria aponta o tamanho do terreno. O Mapa de Oportunidades da CNI identificou 534 oportunidades para o Brasil no Canadá, em produtos como máquinas, equipamentos de transporte e alimentos.

Bebidas

O setor de bebidas ganhou uma brecha inesperada com a briga entre vizinhos. Quando as províncias retiraram os rótulos americanos das prateleiras em 2025, o premiê de Ontário, Doug Ford, lembrou que a LCBO vendia quase C$ 1 bilhão por ano em vinhos, cervejas, destilados e seltzers dos Estados Unidos. Desde então, as exportações de bebidas alcoólicas americanas ao Canadá caíram 72%.

A cachaça tenta ocupar parte desse espaço. Em 2025, o Brasil exportou 7,95 milhões de litros da bebida, alta de 19,4%, com receita de US$ 17,07 milhões. Diante da tarifa americana de 25% em vigor desde julho de 2026, a ApexBrasil e o Ibrac destinaram R$ 2,63 milhões para promoção comercial em México, Canadá e Europa. O caminho, porém, passa pelos monopólios provinciais: a legislação canadense exige que a importação de bebidas alcoólicas seja feita por meio do monopólio de cada província, como a SAQ no Quebec e a LCBO em Ontário.

No café, a tendência é parecida. O produto, tradicionalmente voltado aos Estados Unidos, teve alta de 45% nas exportações ao mercado canadense no primeiro semestre de 2025. Na missão empresarial da Fiemg, CNI e ApexBrasil em maio, as rodadas em Toronto reuniram empresas de alimentos, bebidas e máquinas, com expectativa de US$ 1,26 milhão em negócios nos 12 meses seguintes.

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Tecnologia

Ottawa está colocando dinheiro público em infraestrutura digital. A estratégia federal de computação soberana para inteligência artificial prevê até C$ 700 milhões para atrair investimento privado em data centers, até C$ 1 bilhão em supercomputação pública e até C$ 300 milhões para subsidiar o acesso de empresas à capacidade computacional. Em junho, Carney lançou a estratégia nacional AI for All, com cerca de C$ 2 bilhões em novos recursos federais.

Para fornecedores brasileiros, a porta mais imediata está em serviços, software e componentes. O texto em negociação com o Mercosul inclui capítulos de serviços, comércio eletrônico, telecomunicações e entrada temporária de pessoas de negócios, temas sensíveis para empresas de TI. A indústria eletroeletrônica já se movimenta: doze fabricantes brasileiras de geração, transmissão e distribuição de energia e de componentes participam da Electricity Transformation Canada, em Toronto, de 19 a 21 de outubro.

Riscos no caminho

O otimismo tem limites. Observadores apontam a sobreposição de exportações entre Canadá e Mercosul e o histórico de negociações prolongadas, e uma autoridade ouvida pelo Financial Times admitiu que a prioridade é fechar um acordo viável rapidamente, mesmo que não seja abrangente. Um tratado mais enxuto pode deixar de fora justamente os produtos agrícolas que mais interessam ao Brasil.

Ainda assim, a combinação de tarifas americanas, um Canadá em busca de parceiros e um Mercosul com acesso preferencial à Europa cria uma janela que não estava disponível há dois anos. A questão para o exportador brasileiro é se o país conseguirá vender ao Canadá algo além de ouro.

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Fontes:

Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), Quick Trade Facts 1º semestre de 2026

InfoMoney, exportações recordes ao Canadá em 2025

Feed & Food, carne bovina e dados da CCBC 2025

Comex do Brasil, exportações no 1º semestre de 2025

Economic News Brasil, importações de fertilizantes em 2026

Ministério da Agricultura e Pecuária, X Rodada Negociadora Mercosul-Canadá

Secretaria do Mercosul, rodada de Toronto

O Mundo Diplomático, comércio Mercosul-Canadá em 2025

GHY International, comércio Canadá-Mercosul em 2024

BNN Bloomberg, posição da Federação Canadense de Agricultura

Times Brasil, declarações de Anita Anand

InfoMoney, relato do Financial Times sobre as negociações

Axios, colapso das negociações EUA-Canadá

Al Jazeera, tarifas de 50% sobre produtos canadenses

NPR, produtos atingidos e retaliação canadense

Migalhas, decisão da Suprema Corte dos EUA

Agência Brasil, tarifas propostas pelo USTR

Comissão Europeia, acordo UE-Mercosul

Frequency News, Carney no Parlamento Europeu

InfoMoney, proposta de membro associado da UE

CBC, retirada de bebidas americanas da LCBO

Vinetur, queda das exportações de bebidas dos EUA ao Canadá

Movimento Econômico, exportações de cachaça e convênio ApexBrasil-Ibrac

Expedeasy, regras de importação de bebidas no Canadá

A Tribuna RJ, café brasileiro no Canadá

Fiemg, Missão ao Canadá 2026

Agência de Notícias da Indústria (CNI), Mapa de Oportunidades

Governo do Canadá (ISED), estratégia de computação soberana para IA

Tech Insider, estratégia AI for All

Abinee, Electricity Transformation Canada

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