abril 15, 2026
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BRICS: O que é, para onde vai — e o que isso significa para quem pensa em morar fora

Vou começar com uma afirmação que pode incomodar alguns leitores: o BRICS é uma aliança politicamente conveniente para seus membros, não um projeto de prosperidade para seus cidadãos.

Dito isso, ele existe, cresce e tem implicações concretas para a ordem econômica global. Ignorá-lo seria um erro analítico tão grande quanto superestimá-lo. E para quem pensa em diversificar residência internacionalmente, entender o BRICS virou uma necessidade — não uma curiosidade.

Vamos por partes.

O que é o BRICS e para onde ele aponta

A sigla original reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O grupo foi fundado em 2009 pelos quatro primeiros países, com a África do Sul entrando em 2011. Até aí, a maioria já sabe.

O que muda o cenário é o que aconteceu depois. A partir de 1º de janeiro de 2024, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos passaram a integrar o bloco. Em 6 de janeiro de 2025, a Indonésia também aderiu. A Argentina recebeu convite e recusou — decisão do presidente Javier Milei, coerente com a orientação liberal de seu governo. A Arábia Saudita recebeu o mesmo convite e ainda não deu resposta definitiva.

O grupo já não se chama apenas BRICS. A denominação evoluiu para “BRICS plus”, e a tendência de expansão é clara. Em agosto de 2023, a ministra das Relações Exteriores da África do Sul, Naledi Pandor, declarou que cerca de 40 países haviam manifestado interesse em participar. Em outubro de 2024, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que mais de 30 países gostariam de se juntar ao bloco.

O que une esses países? Não é democracia, não é desenvolvimento, não é modelo econômico. É a posição geopolítica: todos querem reduzir a dependência em relação ao Ocidente — e, mais especificamente, em relação ao dólar americano.

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O dólar no centro do tabuleiro

Aqui está o nó central da discussão sobre o BRICS do ponto de vista econômico.

Na cúpula de outubro de 2024, realizada na Rússia, Putin exigiu que mais comércio fosse conduzido em moedas nacionais dos países-membros. O objetivo declarado é reduzir a dependência do dólar como moeda de reserva global — e, por consequência, diminuir a influência dos Estados Unidos sobre o sistema financeiro internacional.

O problema é que a realidade desmentiu o discurso na mesma semana. Os organizadores da própria cúpula aconselharam os participantes internacionais a trazerem dinheiro em espécie — de preferência em dólares ou euros, já que a maioria dos bancos russos aceita apenas essas duas moedas para câmbio por rublos.

A contradição é evidente e relevante: o país que lidera o discurso anti-dólar opera com uma moeda tão fraca que não consegue usá-la nem para receber seus próprios convidados.

Há outro obstáculo estrutural. Se o dólar fosse enfraquecido como moeda de reserva, o yuan chinês seria o candidato natural a ocupar esse espaço. E nenhum país do BRICS — especialmente a Índia — está disposto a trocar a dependência americana por uma dependência chinesa. Rolf Langhammer, do Instituto de Economia Mundial de Kiel, resume bem: a moeda chinesa ainda desempenha papel secundário nas transações internacionais de pagamento em comparação com o dólar e o euro.

Em 2023, discutiu-se a criação de uma moeda comum do BRICS, possivelmente lastreada em ouro. Os bancos centrais dos países-membros aumentaram suas reservas de ouro, o que alimentou a especulação. Mas há uma pergunta que ninguém consegue responder de forma convincente: a Rússia realmente permitiria que cidadãos resgatassem essa moeda em ouro físico? Abriria mão de suas reservas em troca de papel? Qualquer análise séria responde que não.

O projeto de independência monetária do BRICS é real como intenção geopolítica. Como realidade operacional de curto prazo, é muito mais frágil do que os comunicados oficiais sugerem.

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A dimensão que o Ocidente subestima: a Iniciativa Belt and Road

Paralelo ao BRICS, a China conduz desde 2013 um projeto que merece atenção independente: a Belt and Road Initiative (BRI), ou Iniciativa Cinturão e Rota. Trata-se do maior projeto de infraestrutura já lançado por um único país — com investimentos que vão de ferrovias a redes de satélites, cobrindo mais de 150 países e 30 organizações internacionais, com mais de 200 acordos de cooperação assinados.

Os motivos são três e vale entendê-los separadamente.

O primeiro é estratégico: grande parte do comércio marítimo chinês passa pelo Estreito de Malaca, próximo a Singapura — um aliado americano. A China quer rotas próprias, seguras e independentes dos Estados Unidos.

O segundo é econômico interno: após a crise financeira de 2008, o governo chinês lançou um pacote de estímulo de 4 bilhões de yuans, saturando o mercado interno de obras. A BRI redirecionou essa capacidade produtiva para fora, ao mesmo tempo em que impulsionou províncias centrais que ficaram para trás em relação às zonas costeiras.

O terceiro é monetário: mais da metade das 35 economias que assinaram acordos monetários com a China fazem parte da BRI. Um terço dos 68 países participantes já tem acesso direto ao yuan via seus próprios bancos. A Mongólia é o exemplo mais ilustrativo — quase 90% de suas exportações vão para a China, e um terço de suas importações vêm de lá. Em 2014, Ulaanbaatar assinou um acordo de swap de moeda com Pequim no valor de 15 bilhões de yuans, renovado em 2017.

A BRI é, antes de tudo, um instrumento de expansão da influência chinesa. Isso não é conspiração — é geopolítica declarada.

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Agora o que interessa para quem pensa em residência: o que os países do BRICS oferecem

Deixando a geopolítica de lado — ou pelo menos em perspectiva — vamos ao que é concreto para quem avalia os países do BRICS como destino de residência.

Brasil

O Brasil oferece cinco rotas principais de residência permanente. O visto de investidor exige aporte de 750 mil reais no norte do país ou 1 milhão de reais no sul — em imóveis ou empresas, o equivalente a aproximadamente 100 a 170 mil euros. Aposentados podem obter residência com comprovação de renda mensal de 2.000 dólares. Desde janeiro de 2022, existe o visto de nômade digital, para quem trabalha remotamente com renda de 1.500 dólares mensais ou 18 mil dólares em economias — renovável anualmente de forma indefinida. Há também as rotas via contrato de trabalho com empresa brasileira e via reunião familiar, incluindo o caso de filhos nascidos no Brasil, que adquirem cidadania automaticamente.

Ponto crítico: a residência permanente no Brasil está vinculada a obrigações fiscais sobre renda mundial. Isso muda completamente o cálculo para quem tem renda internacional.

Rússia

O processo tradicional russo exigia comprovação de conhecimento do idioma, da história e da legislação do país, além de visto temporário de dois anos antes de qualquer pedido de permanência. O governo russo lançou recentemente o programa “Visto de Valores Compartilhados”, que simplifica consideravelmente esse caminho — dispensando, por exemplo, o teste de idioma e história. O programa inclui 47 países e territórios elegíveis, lista aprovada pelo primeiro-ministro Mikhail Mishustin em setembro de 2024, e contempla majoritariamente países da América do Norte, Europa Ocidental e partes da Ásia e Oceania.

O objetivo declarado é suprir necessidades futuras de mão de obra. O objetivo não declarado, segundo análises do próprio governo russo, é atrair quem está insatisfeito com os sistemas ocidentais.

Índia

As quatro rotas principais são: visto de investidor (investimento de vários milhões de dólares com estadia comprovada de dois a cinco anos), reunião familiar com cônjuge ou parentes indianos (também com dois a cinco anos de estadia prévia), status de refugiado reconhecido pelo governo indiano, e contrato de trabalho com empresa indiana após pelo menos cinco anos morando e trabalhando no país. O processo indiano é notoriamente burocrático e exige tempo de residência prévia em praticamente todas as categorias.

China

A China oferece mais categorias do que a maioria das pessoas imagina, mas o processo é amplamente descrito como demorado, caro e restrito a um número pequeno de solicitantes aprovados. As principais rotas incluem investimento estrangeiro de 500 mil a 2 milhões de dólares, visto de empreendedor, visto de talento especial (Visto R), reunião familiar e categorias específicas para profissionais altamente qualificados e pesquisadores. Há também caminhos específicos para quem trabalha em zonas especiais como a Área de Lin-gang em Xangai.

África do Sul

O país oferece residência via investimento com constituição de empresa, independência financeira com patrimônio líquido mínimo de 12 milhões de rands — cerca de 700 mil dólares, sujeito a uma taxa de 7 mil dólares —, visto de habilidades críticas para profissionais em áreas prioritárias, renda mínima de 2.000 dólares mensais para aposentados, contrato de trabalho por tempo indeterminado com mais de cinco anos de qualificações, e reunificação familiar com cônjuge ou parceiro de cidadania sul-africana.

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O que concluir

O BRICS é uma realidade geopolítica crescente que não pode ser ignorada — mas também não deve ser romantizada. É uma aliança de países com interesses comuns em relação ao Ocidente, não um projeto de prosperidade ou liberdade individual para seus cidadãos. O enfraquecimento do dólar é um objetivo real, mas sua execução esbarra em contradições estruturais que os próprios membros do bloco não conseguem resolver internamente.

Para quem analisa esses países como destinos de residência, a lente correta não é geopolítica — é pragmática. Cada jurisdição tem regras distintas, processos com níveis de complexidade muito diferentes e implicações fiscais que variam enormemente. O Brasil tributa renda mundial. A China restringe aprovações. A Rússia simplificou o processo, mas o contexto geopolítico atual adiciona camadas de risco que qualquer análise séria precisa contemplar.

A escolha certa depende do seu perfil, da sua origem de renda e dos seus objetivos de longo prazo. Não existe resposta universal — existe análise estratégica bem feita.

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